Crônica ganha vida em vídeo de autor

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Nilson João de Oliveira foi o grande vencedor do 15° Concurso de Crônicas Lucas Camargo da AFABB-SP; em entrevista à Associação, autor revela um pouco dos segredos de sua obra

 

CRONICA TOPO

ENE JOTA E SUA 'LINGUA PAULISTA'

Por Gabriel Vinicius com edição da Redação AFABB-SP

A edição de numero 15 do concurso de crônica Lucas Camargo, realizado pela AFABB-SP, teve como ganhadora a crônica “Língua Paulista” escrita pelo associado Nilson João de Oliveira, sob o pseudônimo Ene Jota. A obra “ganhou vida” em vídeo gravado pelo próprio autor e pode ser conferida na íntegra no final desta matéria.

Além disso, para que todos conheçam um pouco mais sobre o autor, a AFABB-SP traz um rápido bate-papo com Nilson que revela um pouco mais sobre sua crônica “Língua Paulista”.

O objetivo do concurso é incentivar os associados a desenvolver seus talentos literários. Participe você também.

 

CRONICA2 CLIQUE Clique para ver o vídeo do autor e a obra vencedora


 

Entrevista com Nilson João de Oliveira

 

AFABB-SP - Qual a importância desse tipo de concurso para os associados e o que o levou a participar?

Nilson João de Oliveira: Eu acho que, para os amantes das artes, esse tipo de concurso estimula a gente a criar.  Poder escrever poemas, escrevendo crônicas no caso, ajuda a gente a se mexer artisticamente.

 

AFABB-SP- Você já tinha participado de outra edição do concurso? Pretende continuar participando nos próximos anos?

Nilson: Eu acho que essa foi a terceira vez que eu participei e, claro, sempre que tiver eu vou querer participar! Se bem que depende muito da inspiração que eu vou ter no momento para poder escrever. Eu não consigo só participar por participar, eu preciso ter uma inspiração.

 

CRONICA IMG1Nilson João de Oliveira, o Ene Jota, autor de "Lìngua Paulista"

 

AFABB-SP - O que o motiva a continuar escrevendo?

Nilson: É o mundo em si porque, dependendo das coisas que estão acontecendo, eu, enquanto ser humano dentro desse tudo, também acho que até para tentar contribuir com a melhoria, escrevo minhas impressões para que outras pessoas possam refletir sobre o que eu escrevo, entendeu? Nisso, acho que estou contribuindo para que as pessoas possam se dedicar à leitura, que eu acho tão importante.

 

AFABB-SP - Qual foi a Inspiração para a crônica?

Nilson: O que me levou a escrever essa crônica é a indignação que eu tenho sobre o preconceito linguístico. A gente naturalmente vai sendo engolido por uma língua oficial, que serve para concurso, para fazer um discurso em público, mas o que o povo fala é um pouco diferente dessa língua. Eu espero que esteja ajudando a diminuir esse preconceito, entre tantos outros que tem por aí.

 

AFABB-SP- O preconceito linguístico pode ser apontado como um dos principais fatores para a normalização (padronização) da linguagem nos grandes centros urbanos?

Nilson: Eu acho sim. Às vezes as pessoas ficam com vergonha de falar, o que é uma pena, uma riqueza que vai se acabando... Por que em uma cidade do interior de São Paulo se fala de um jeito e todo mundo se comunica numa boa, mas quando está nas capitais tem de falar igual à forma que se fala em São Paulo ou no Rio de Janeiro?  Por que há essa necessidade? Se essa bonita cultura fosse mais valorizada, não se acabaria.

 

AFABB-SP - A língua portuguesa em sua norma culta coloca em risco a história e a cultura de outras regiões do Brasil?

Nilson: Isso é uma riqueza cultural que nós temos, não era pra ter preconceito, era pra ficar feliz da vida porque é um País que fala de diferente maneira, assim como na África de vários dialetos, na Itália, Espanha. Aqui no Brasil, se não for o padrão, não tem nenhum valor. Claro que não é todo mundo, sei que muitos entendem esse valor, essa riqueza da nossa língua.

 

AFABB-SP- Qual é a critica e a reflexão que nos propõe ao lermos a crônica?

Nilson: Primeiro, eu acho que também há beleza em nossa língua oficial, a língua portuguesa, para gente escrever, narrar situações. Nas crônicas, é uma coisa que a gente também precisa gostar de fazer, porque nos faz muito bem, né? Isto já é uma coisa que eu gostaria que nós, brasileiros, gostássemos mais.

E a crítica é sobre a falta de falar um pouco mais sobre preconceito linguístico. É uma coisa sobre a qual mal se fala. Então eu espero que a crônica colabore a aumentar mais a discussão sobre esse assunto.

 

Leia na íntegra a crônica vencedora

Língua Paulista

Por: Nilson João de Oliveira, o Ene Jota

Como me dói ouvir, principalmente de um educador, que o educando fala errado! E de uma maneira preconceituosa não considerar a essência da língua que predomina no país afora com suas variações.

Dá para contar facilmente a quantidade de pessoas que falam o português normatizado, legalizado, em todos os momentos da comunicação. E se há exigência social e normatizada para isso, não precisamos colocar em patamar inferior as normas culturais da língua falada nos diversos espaços regionais. Cabem respeito, reconhecimento e interesse na valorização da língua falada em cada região, pois pertence ao universo histórico e cultural.

Essa indignação gera em mim, retomar todo o processo, tanto das minhas caminhadas, no seio de um mundo cultural caipira, caipira paulista, quanto das minhas andanças pelo país afora em busca de colaborar com a melhoria nos índices de alfabetização. Com muita clareza, penso que alfabetizar não é reforçar os preconceitos linguísticos, mas ampliar as formas de comunicação de cada cidadão, para torná-lo mais cidadão.

Posso comentar sobre as falas particulares de muitas regiões brasileiras e admirar a vastidão de elementos linguísticos, já estudados por grandes pesquisadores, dentre eles o divino Marcos Bagno e outros professores da UnB.

Quero falar, utilizando das normas oficiais, sobre essa riqueza cultural nos campos bonitos e verdejantes do interior paulista, onde vivi e vivo.

“Vem de lá do interior do mato”, como diz o poeta, esse falar consistente de muita comunicação, muita prosa. O caipira se comunica com poucas palavras e muitos gestos, mas com uma riqueza extrema de convivência e solidariedade

Ao pedido de uma informação ele responde com gestos, em que a cabeça e os braços desenham uma redação de dados que necessitam de alguns recursos para a interpretação. Ele basicamente fala com o corpo e esse ato é infinitamente maravilhoso, pois possui a grandeza da comunicação natural e cultural.

Nos cumprimentos sociais, ao longo do dia, as frases são pequenos trechos de palavras que unem sons, às vezes, suaves, outras vezes, com bastante entonação, combinados com olhares e acenos repletos de afetividade. Aí que está o núcleo da convivência, que em outros espaços mais urbanizados, de cidades grandes, as frases são amplas e as palavras completas, porém, os órgãos de sentidos não participam, olhares e gestos quase ocultos.

Lembro-me que, na minha juventude, a gente cumprimentava dando dois beijos, um em cada lado da face, já nas grandes cidades, o costume era apenas um. E no Nordeste, três beijos, refletindo o intenso calor afetivo do povo que vive naquela região.

Na recepção ao amigo, ao parente, a casa toda é oferecida sem necessidade de assinar um contrato. Passa pela confiança e amizade, a licença para se sentir como se estivesse em sua própria casa. A porta sempre está aberta. Pode entrar, sentar, comer, beber e sorrir. “A casa é sua”, diz outro poeta.

E quando vai embora, o visitante leva consigo os momentos de vida verdadeiramente vivida, com calor irradiante de felicidade.

E quantas vezes me banhei no corgo, narramos estórias de pesca no corgo, em cima da pinguela.

Era comum minha amiga de Ribeirão Preto me convidar para passar de lá e tomar uma cerveja em sua casa.

Não tinha nenhum receio em dizer nóis vai e nóis vem e tudo estava muito bem. O importante é que nóis alegrava vendo a passagem do trem, e na estação, receber os primos com a charrete estacionada ao lado da famosa fonte.

Na porta da sua casa, com a bassôra na mão, Madrinha Tereza recebia um biête da comádi perguntando se tinha pumada para curar berruga. Respondia ao mininu que só tinha miorá, para dor de cabeça. E sem fazer cócica, sorria gostosamente, vendo um largato passar em cima da sua chinela. Ali perto, um passarinho avoava, talvez um passo preto. E na volta para casa o meninu trupicô, pois, o cardaço da sua precata estava desamarrado.

Já em Araçoiaba da Serra, Dona Clotilde exclamava: Tá chovendinho, che, assim não vai encher a caixa d’água. Varte, trais o barde correndinho. O de prástico, porque o outro seu pai deu embora.

Arco, tarco e verva não faltam nas barbearias de Taubaté e outras localidades. E a Matilde disse que em Valparaíso não falta nem navaia.

Precisava reforçar a ação dizendo subir pra cima, descer pra baixo e prolongar os erres dos verbos, quase que entoando uma melodia: cantarrr, procurarrr.

Essas falas, esses termos próprios de cada lugar não impediam a valorização da língua normatizada que os mais jovens recebiam na escola e como um parto, tinham que eliminar o vocabulário tão natural em suas vidas, mas que não tinha valor nenhum para um florescer profissional no mundo moderno.

Que pena, assim vai se perdendo esse conjunto cultural que passa a ocupar espaços tão somente nos palcos e telas, transformando-se em arte. Porque na arte a cultura nunca é abafada e sim reconstruída, contada e recontada.

E quem sabe, no mundo de reflexão, o preconceito linguístico ainda possa ser eliminado, assim como outros preconceitos que ainda afetam a essência da sociedade atual, que trazem tão somente o prejuízo para a evolução da Humanidade.

 


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